Prática

Como cobrar aditivo sem briga com o cliente

Por Fernando Gomes, fundador do Combinado

Publicado em
Autor
Fernando Gomes
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~9 min

Por que o ajuste vira briga

Na consultoria, quem vendeu não é quem entrega. O atendimento lembra que o blog "foi conversado". A produção não estava na call. O cliente lembra que "site institucional inclui blog". Os três estão de boa-fé. Nenhum tem um parágrafo para mostrar.

Eu vi isso acontecer em projeto fechado de R$ 24.000: reunião de 40 minutos, resumo no WhatsApp, produção no que entendeu. Na terceira rodada, o pedido da área de blog. Ninguém acha o áudio. A produção faz. Quatro dias sem nota. No fechamento do mês, a margem sumiu e ninguém brigou em voz alta. Brigou no silêncio da planilha.

A briga aberta aparece quando a agência tenta cobrar depois de ter feito. Aí o cliente ouve: "isso era extra" sem ter visto o extra antes de autorizar. Do lado dele, a cobrança chega como surpresa. Do lado da agência, a recusa chega como abuso. Os dois lados estão lendo um combinado que nunca foi o mesmo texto.

A saída não é endurecer o tom. É parar de executar o pedido solto e tratar o extra como uma decisão, com número na frente.

O que precisa existir antes do passo 1

Sem escopo escrito, aditivo não tem contra o que bater. Entregáveis com critério de aceite, exclusões no mesmo nível, e uma frase de política de mudança ("pedido fora da versão aprovada entra como aditivo") são o chão. Se o seu job ainda vive só na proposta e no grupo do WhatsApp, escreva o escopo da próxima reunião antes de treinar o time a cobrar. Cobrar em cima de memória é o que desgasta.

A política de mudança também precisa ter sido lida pelo cliente, não só pela agência. Frase escondida no rodapé de um PDF de 14 páginas não conta como combinado. Frase no bloco de mudança, no mesmo documento que ele aprovou, conta.

Passo a passo para cobrar o aditivo

1. Pare a produção no pedido novo

O reflexo da agência boa é fazer. Segure. "Vou olhar contra o que está aprovado e te devolvo com preço e prazo" é a frase que cabe no grupo. Produzir "enquanto a gente vê" queima o direito de cobrar: o trabalho já existe, o cliente já recebeu, e a conversa vira desconto.

Se a produção já começou o extra por impulso, pare no estado atual, registre as horas já gastas, e só então abra o aditivo. Não esconda o que já foi feito. Esconda, e o cliente tem razão de reclamar da conta.

2. Registre o pedido do jeito que chegou

Copie a mensagem, transcreva o áudio, cole o e-mail. Data, hora, nome de quem pediu, canal. Não reescreva o pedido em linguagem da agência ainda. O cliente disse "quero uma área de blog com uns 10 posts". Esse é o objeto. Sua interpretação ("CMS, 10 posts, listagem, SEO básico") vem no passo 4, visível, para ele concordar ou cortar.

Se o pedido veio em call, mande no mesmo dia um recado curto: "Anotei o pedido de área de blog com 10 posts, feito hoje na call. Vou comparar com o escopo aprovado e devolver o impacto." Sem esse recado, a call some.

3. Compare com a versão aprovada, não com a memória

Abra o texto que o cliente aprovou, não o briefing, não o WhatsApp da semana 1. Três resultados possíveis:

  • Estava dentro. O pedido é execução, não aditivo. Responda com o trecho. Sem cobrança.
  • Estava fora, em exclusão explícita. O pedido é aditivo. Cite a frase da exclusão ("área de blog e cadastro de posts").
  • Não estava escrito. Nem dentro, nem fora. Trate como aditivo do mesmo jeito. Lacuna no escopo não é autorização para fazer de graça, e também não é autorização para inventar um "não". É um item novo, com preço.

Mande o trecho citado, não um resumo. "Estava em Fora do escopo na versão 2 aprovada em 04/09" é uma frase que o cliente consegue checar. "A gente não tinha combinado isso" é uma opinião.

4. Precifique impacto em preço e em prazo

Número visível, antes de qualquer pixel novo. Horas da produção vezes a diária interna, ou o preço de tabela daquele tipo de extra, se a agência já tiver. Prazo em dias corridos ou úteis, e o que isso faz no próximo marco.

No exemplo do blog: área de blog com 10 posts, que estava fora na versão 2, entra como aditivo de R$ 3.200 e mais 5 dias no calendário. A publicação prevista para o dia 45 vai para o dia 50. O marco de desenvolvimento se desloca. Escreva isso em duas linhas, não em um parágrafo de justificativa.

Se o pedido for pequeno de verdade (trocar um telefone no rodapé, dentro da rodada de ajuste que ainda resta), diga que cabe na rodada e não cobre. Cobrar tudo, inclusive o que a política de revisão já cobre, é o outro jeito de estragar a relação.

O Combinado compara o pedido com a versão aprovada e sugere o impacto; quem decide o número é a agência. Sem ferramenta, a comparação é manual: dois documentos lado a lado, o aprovado e o pedido. O que não muda é a ordem: número primeiro, produção depois.

5. Peça o sim pelo mesmo canal do escopo

Se o cliente aprovou o job por um link, o aditivo vai por aquele link. Se aprovou por e-mail com o PDF anexado, o aditivo vai naquele e-mail, com o texto novo em anexo. Trocar de canal no extra ("confirma no zap?") mistura um "ok" solto com um documento que tinha versão. O cliente depois diz que o "ok" era sobre o tom da peça, não sobre os R$ 3.200.

O texto do aditivo precisa caber numa tela: o que entra, o que continua fora, o preço, os dias, a nova data do marco, o botão de aprovar ou recusar. Sem juridiquês. Sem ameaça. O cliente que recusa o aditivo está recusando o extra, não o job original. A produção segue o que já estava aprovado.

6. Só execute depois do sim dessa versão

A versão nova, com o extra, é a que vale dali para frente. A versão antiga continua guardada, porque a briga de daqui a dois meses é "o que valia em setembro". Sem as duas, você volta à memória.

Se o cliente pede para "ir fazendo que eu aprovo na sexta", recuse com o calendário na mesa: a produção entra na fila na sexta, se o sim chegar na sexta. Trabalho em confiança sem registro é o que a agência já fez, e foi isso que comeu a margem.

7. Feche o mês com o aditivo na nota, não no sentimento

Quando o extra está aprovado, ele entra na cobrança com a mesma naturalidade da parcela do job. O cliente já viu o número. A nota não é a primeira vez que o valor aparece. Se a agência espera o encerramento para "acertar os extras", cada aditivo vira uma negociação nova, com desconto pedido em lote.

O que não fazer, mesmo com pressa

Não peça desculpa por cobrar o que estava fora. Desculpa aqui soa como se o extra fosse um favor mal cobrado. Informe. "Isso estava fora da versão 2. Para entrar: R$ 3.200 e 5 dias. Quer que eu inclua?"

Não misture o aditivo com uma discussão de qualidade. Se o cliente recusou um entregável que já tinha critério de aceite, isso é retrabalho da agência, não extra. Se ele recusou porque mudou de ideia, isso é extra. O critério de aceite escrito é o que separa os dois.

Não use o aditivo para recuperar margem de um escopo mal vendido. Preço do job original ruim se resolve na próxima proposta.

O atendimento para de temer o "mais uma coisinha" quando o extra é uma escolha com número, não uma armadilha. A produção para de fazer de graça. O cliente para de ser pego de surpresa.

Quem quiser ver essa mecânica num documento de verdade pode abrir o projeto de exemplo (tem uma mudança registrada). O primeiro registro no Combinado é grátis, uma vez por CPF ou CNPJ, sem cartão; preço e perguntas estão em nossocombinado.com.br.

Perguntas diretas

Perguntas frequentes

E se o cliente disser que "era só um ajuste"?
Ajuste é o que cabe nas rodadas combinadas, sobre um entregável que já estava no escopo. Item novo, página nova, integração nova ou terceira rodada não é ajuste. Responda com o trecho da versão aprovada e com o número do aditivo. Sem o trecho, a conversa vira opinião contra opinião.
Posso cobrar aditivo de um job que já foi entregue?
Pode tentar, e quase sempre vira desgaste. Extra feito e entregue sem número na frente o cliente já incorporou como parte do job. A hora de cobrar é antes de produzir. Job já encerrado se resolve, no limite, com conversa e desconto de relacionamento, não com aditivo tardio.
O atendimento pode precificar o extra sozinho?
Pode, se a agência tiver tabela (página extra, idioma extra, rodada extra, post extra). Se não tiver, a produção estima as horas e o atendimento traduz em reais e dias. Número inventado no comercial, sem quem executa, nasce errado e a briga muda de lugar: de cliente contra agência para atendimento contra produção.
E se o cliente recusar o aditivo e insistir no extra?
A produção segue o que está aprovado. O extra não entra. Essa frase precisa estar na política de mudança, lida antes. Sem ela, recusar o extra parece birra. Com ela, é o combinado.
WhatsApp vale para aprovar o aditivo?
Um "pode fazer" no grupo registra pouco: não amarra versão, valor e prazo num texto só. Se o escopo foi aprovado por um canal com versão, o aditivo precisa do mesmo canal. O "ok" solto é o que a agência já tem hoje, e foi isso que não segurou a cobrança.
Preciso de um modelo de e-mail para o aditivo?
Use quatro linhas: o pedido nas palavras do cliente; o trecho do escopo (dentro, fora ou não escrito); o impacto em reais e em dias; o pedido de sim ou não. Qualquer modelo mais longo vira juridiquês, e o cliente deixa para depois.

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